Existe uma forma de realizar estudo bíblico que eu considero perigosa, para não dizer perniciosa.
São aqueles tipos de estudos realizados na modalidade “perguntas e respostas”. Este tipo de estudo é geralmente conduzido por líderes de ministérios ou grupos cujo maior objetivo não é alimentar suas ovelhas daquilo que o cristianismo chama Palavra de Deus. Seu principal objetivo é a arregimentação de seguidores e discípulos a partir do convencimento de uma tal “verdade”.
São semelhantes aos escribas e fariseus que Jesus descreve em Mateus 23:15 “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!”.
Esses estudos se caracterizam em geral por questionários em que cada pergunta vem seguida de um ou dois versículos bíblicos que, dizem, responde àquele questionamento. Geralmente são “estudos” temáticos.
O problema é que esse tipo de estudo é direcionado, voltado para que a Bíblia diga aquilo que seu interlocutor pretende que diga. Versos isolados são então “jogados” sobre aquele que estuda a Palavra de Deus, reduzindo-se, muitas vezes, um tema extenso na Bíblia a uma dúzia de versículos grandemente desconectados de seus contextos.
É uma forma de estudo extremamente biblicista, voltada para memorização de versículos e idéias, pouco influenciando a vida e a caminhada cristã do estudante. Pouco ou nada inspirando ideais cristãos. O estudante tem a impressão de que está conhecendo a Bíblia quando, na verdade, está estudando um tema de maneira muito superficial. Busca-se apenas o convencimento e não um “nascer de novo” (ver João 3:3).
Tem-se então, em um paradoxo terrível, pessoas capazes de citar versos bíblicos como se fossem metralhadoras ambulantes, cuspindo textos e mais textos, mas que pouco conhecem da Palavra de Deus e das maravilhas que ela pode operar no coração e vida daquele que crê.
Sugerimos aqui uma forma / ou roteiro para estudar a Bíblia que julgamos mais adequada.
1) Se você está tendo um primeiro contato com a Bíblia, leia os livros e se familiarize com elesMuitas pessoas nunca tiveram contato com a Bíblia e, influenciadas por um amigo ou amiga começam a estudar. A Bíblia é um livro complexo, cujo contexto sócio-cultural, político, econômico é diferente do nosso. Ela é um compêndio com dezenas de livros (66 nas edições protestantes e 73 nas edições católicas) cujo mais recente foi escrito 1900 anos atrás (!). Portanto, o primeiro passo, para quem quer começar a estudar a Bíblia é ler. Uma leitura sequencial, contínua, diária e não-esporádica. Algumas vezes você vai precisar de um dicionário. Assim cria-se familiaridade com o texto e a forma de escrita.
Nessa “fase”, alguns cuidados são importantes: escolha uma tradução contemporânea, de português atualizado e fácil leitura. Nas versões protestantes recomendo a Nova Versão Internacional (
Vida) ou a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (
SBB), nas versões católicas recomendo a Edição Pastoral (
Paulus).
2) Leia diariamenteÉ importante uma leitura diária da Bíblia. Mesmo que sejam poucos minutos no início. Geralmente as próprias Bíblias trazem essas divisões, em forma de subtítulo, que conquanto não façam parte do texto inspirado, são de grande valia na hora de escolher uma ou duas “unidades de leitura” ou evento.
3) Conheça o contexto histórico e literárioO
estudo propriamente dito da Bíblia começa aqui.
Uma vez familiarizado com o texto, lembre-se: o mais recente foi escrito há 1900 anos. Portanto, você precisa conhecer o contexto no qual aquele livro, carta foi escrita. Algumas edições trazem alguma introdução sobre o contexto histórico e análise de autoria. Sugestões na seara protestante: Bíblia Thompson (
Vida) e Bíblia Shedd (
Vida Nova). Sugestões católicas: Bíblia do Peregrino (
Paulus) e Bíblia de Jerusalém (
Paulus).
Além disso recomenda-se atentar para os aspectos literários: do que o autor está falando? Qual o tema central do texto? É poesia, prosa, lenda, mito, parábola? Qual a mensagem espiritual que o autor estava querendo ensinar quando escreveu?
4) Priorize a leitura escriturísticaEssa “dica” é concomitante a anterior. Priorize o estudo completo de um livro ou carta. Uma exceção a essa regra talvez se aplique ao livro de Salmos.
Em um primeiro momento é mais importante conhecer um livro (Atos dos Apóstolos, Evangelho segundo Lucas, Isaías, etc) do que um tema específico. Em vez de escolher um tema (santificação, por exemplo) leia o livro de Atos dos Apóstolos fazendo a análise
do livro e não de um tema específico.
Estudar um tema é importante, obviamente, mas a prioridade é a leitura de um escrito, fazendo a devida análise de contexto. Se a busca for única e exclusivamente de um tema corre-se o risco de se buscar textos (versículos) fora do contexto e “forçá-los” a dizer aquilo que o texto não está dizendo. E como diz um amigo meu: "um texto, fora do contexto, é motivo para um pretexto".
5) Estude um temaO estudo de um tema é relevante e deve ser feito, mas esse tipo de estudo se aplica àquelas pessoas que já estão familiarizados com as Escrituras. Para isso, você precisará de mais que uma Bíblia. É interessante o uso de um dicionário bíblico e/ou uma enciclopédia bíblica. Também pode ser de grande valia o uso de um comentário bíblico e uma concordância.
Na hora de estudar um tema, busque informações diversas. Para formar uma visão precisa e correta de um tema busque as diferentes perspectivas sobre aquele assunto: qual a visão de católicos e qual a dos protestantes? Qual a visão contemporânea e a dos reformadores? Como os pais da igreja viam isso e como nós vemos atualmente? Entre outras perguntas que podem ser feitas.
O estudo de um tema deve ser profundo e voltado para uma análise acurada. Não se estuda um tema bíblico com base em meia dúzia (ou uma dúzia que seja) de versículos, “analisados” em uma hora.
6) Lembre-se: sua fé deve ser em Deus, não na BíbliaPor último, a principal recomendação: quando estiver lendo a Bíblia, que reputamos como Palavra de Deus, coloque em sua mente que ela foi escrita em um tempo diferente, por pessoas em contextos diferentes do seu, com objetivos específicos para aquela hora e lugar.
Deus opera na história e sua graça se revela nas pessoas e na prática do amor. Ele está presente hoje como esteve presente nos tempos bíblicos.
Não amamos a Deus na medida em que amamos o próximo. Amamos ao próximo
porque amamos a Deus.
Portanto, ao encontrar um texto “difícil” lembre-se disso, busque informações, analise outras perspectivas sabendo que a fé cristã é em Deus e não na Bíblia. Deus inspirou quem a escreveu e não o texto em si (ver 2 Coríntios 3:6) Ela é um meio para conhecermos a Deus, e não um fim. A vida cristã transcende a Bíblia, ainda que tenha origem nela.